1 de diciembre de 2007

Saga Marroqui
Dia VI

"Como é bom voltar a Marráquexe, a mais mágica das cidades do deserto! Devagar, deixamo-nos engolir pela cidade, caminhamos ao lado da multidão, em rua onde se conquista, metro a metro, o espaço disputado pelos peões, burros, carroças, motos, bicicletas, carros. Uma corrente eléctrica de fraca potência filtra a poeira suspensa no ar e caminhamos como se estivéssemos dentro de uma nuvem - de vozes, ruídos, cheiro a lenha queimada. Metade da cidade está atrás dos balcões do rés-do-chão e a outra metade circula ao longo delas. Não deve haver ninguém que fique dentro de casa assim que o Sol se põe: é como se a cidade inteira celebrasse a vida todos os fins de dia. Conheço alguns segredos escondidos no souk, portas altíssimas de pesada madeira de cedro virgem que abrem para palácios inimagináveis onde tudo está na mesma, como estaria há duzentos anos, pátios de casas no meio do caos das ruelas onde, em vez do ruído que se espera ouvir das ruas lá fora, só se escuta o som da água a correr num tanque onde flutuam pétalas de rosa. Marráquexe quer dizer «parte depressa» porque a cidade foi edificada num planalto de emboscadas. Mas aqui, os Almorávidas, berberes da Mauritânia, resolveram por fim à sua condição de nómadas e fundar a mais bela cidade do deserto."

Miguel Sousa Tavares in Sul
Click here

No hay comentarios: